domingo, 18 de janeiro de 2009

SE

SE podes conservar o teu bom senso e a calma
No mundo a delirar para quem o louco és tu...
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê... Se vais faminto e nu,

Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...

Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...

Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer do pensamento um arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho...

Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores...

Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...

Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio a construir de novo...

Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante...

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...

Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minute se espraie em séculos fecundos...

Então, ó ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!...

Rudyard Kipling

SE

Este poema é favorito na minha casa. Ouvia-se bem alto o João Villaret e esta era talvez a faixa do cd que mais me impressionava. Agradeço ao meu pai o bom gosto.



Rudyard Kipling escreveu muito para além do "Livro da Selva".

sonhos

Aceitei um certo desafio de pensar em 8 sonhos e acabei por não conseguir pensar noutra coisa. Antes de me aventurar e revelar projectos, deixo aqui uns pensamentos soltos.


Os sonhos não definem exactamente quem somos mas aproximam-se de quem gostaríamos de ser. Pesando o risco da natural frustração, da pena de gastar a vida a sonhar com outro papel no mundo, há quem não sonhe de todo. Não dedica a vida a sonhar, nem a realizar nada seu. Perde tempo no quê?

Não levem a mal a ousadia, nem julguem os mais velhos que é muito fácil sonhar com a vida toda pela frente. Os meus sonhos são também fardos, pesados. Mas alegres. Ou não os considerasse – e aqui muitos cobardes resmungam “tolice” – a oportunidade de honrar a tal “imagem e semelhança” que um dia Alguém soprou em mim.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

protocolo reescrito

1)Boa tarde, o meu nome é Lia Nunes, sou estudante da F.M.L e vou: auscultar o seu coração/pulmões, observar os seus olhos/ouvidos, medir a sua TA/os seus pulsos, testar a sua função vestibulo-cerebelosa/mobilidade voluntária, etc.

2)Para isso, vou seguir uma rotina própria que estou preparada para alterar caso as circunstâncias clínicas assim o exijam.
2a)Nessas circunstâncias incluem-se as seguintes manifestações da minha parte:
- I falhas de memória
- II lentidão
- III disartrias (dificuldade em articular as palavras)
- IV coreia (movimentos involuntários e irregulares)
- V comportamento desadequado e psicoses(crises depressivas, manias, desespero)

Na presença de I + uma entre II, III, IV e V, ou de 2 entre II,III,IV e V, peço ao paciente que permaneça imóvel e em silêncio e asseguro-me que o local do exame tem privacidade, temperatura amena e é silencioso.

O meu exame prático de introdução à clínica é já amanhã...

domingo, 4 de janeiro de 2009

Domingo

"Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens." ICoríntios 15:19

Já tinha saudades de ir à igreja.

domingo, 28 de dezembro de 2008

sugestões


Romance ligeiro que prende a atenção e satisfaz com alguma fantasia pelo meio. Era assim o “Em busca do carneiro selvagem”, de que gostei.



Tem de ser. Porque dizem que é a obra-prima, é Nobel, português, todos já leram. Para saber se se ama ou se se detesta. Ou se nem um nem outro, ao contrário do que apregoam.





A colecção do bairro de Gonçalo M. Tavares lembra as caixinhas de bombons. Mas sem os lípidos saturados e a culpa. Mais um português interessante.




Guerra e Paz. Quem ainda não leu, como eu, está em maus lençóis. Estes clássicos deviam ser todos de leitura obrigatória até à idade adulta, sem desculpas.






Cerejas, são cerejas!

ferias dentro da caixa da televisão

A quem tem passado estes dias de festa em casa, constantemente a comer os restos do bolo-rei e a ver os filmes de todos os natais, sugiro umas boas leituras para valorizar as férias...
São os livros que me apetecia ler nos próximos meses. Mas a lida diária, que envolve o uso compulsivo de pijamas e uma obsessão por protocolos clínicos, não o permite.

domingo, 21 de dezembro de 2008

presentes com amor

Uma certa amiga recebeu de presente do namorado um livro, com uma dedicatória personalizada do próprio autor.

Já a mim, pelos meus 21 anos, o meu queridinho resolveu oferecer-me umas pantufas. Especiais, claro, com a enorme mais valia de poderem ser aquecidas no microondas. Encomendou pela Internet.

Passaram quase 2 meses escondidas, até há poucas madrugadas.

Perdoa a minha altivez… Que bem que aquecem os pés as toscas pantufas!
Fico feliz por acreditar que não me esgoto no que faço. Porque ultimamente não tenho feito nada de especial.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Há uma semana atrás

Barcelona me encantas!




Entre várias tapas e meus pés doridos, emocionei-me com arquitectura. Ou a alegria de fazer gazeta foi excessiva.

sábado, 29 de novembro de 2008

Gostamos muito de nos achar com imenso tempo e sozinhos para finalmente realizar a nossa lista bestial de afazeres. Desde ler aquele livro até aspirar o quarto. Mas auto-boicotamo-nos. O fim-de-semana ainda agora começou e já vagueio pela Internet.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

prendinhas envenenadas

Uma tragédia em 2 actos para oferecer a meninas a quem se quer mal.




"Imaginem o que é ter de cuidar de um bébé, de lhe dar os mimos e a atenção de que tanto precisam. Este jogo faz isso mesmo e só se aplica às meninas que gostem de bebés amorosos e que queiram cuidar deles. Há alguma que não seja assim?"







""Imagina Casamento de Sonho" dá a jovens raparigas a oportunidade de viverem a vida gratificante de um designer de casamentos e exprimirem toda a sua criatividade."


Podia lançar uns palpites sobre a filosofia que sustenta estes passatempos mas estou ocupada com a gratificante tarefa de ver a novela e ainda tenho de ir pintar as unhas.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

poesia no fim-de-semana (regresso à erudição)

No sábado gostei muito de ouvir Joaquim Pessoa. Dizia assim:

Europa Acidental

Europa acidental
Aqui nem mal nem bem
Aqui nem bem nem mal.

Aqui se alguém não é ninguém
É porque a gente nasce
De um modo ocidental:
Vivem uns bem e outros mal.

E afinal
É natural (naturalmente)
Que haja gente também
Gente que é gente de bem
E gente que é apenas gente.

Europa acidental.

O mal
É Ter na nossa frente
Um mar de sal.
Um mar de gente
Que de repente
(é assim mesmo: de repente)
fica vazio e sem ninguém
se um dia alguém
por mal ou bem
quiser ser gente.

Europa acidental.

Europa acidental.

Não andar para trás nem para a frente.
Nascer morto ou vivo é tão normal que é indiferente.
E vai-se toda a vida na corrente.
E a gente morre de repente.
Sempre de costas.
Nunca de frente.
De morte necessária e natural ( naturalmente ).

Europa acidental.

Europa acidental.
O principal não é viver: é estar presente
nesta maneira ocidental de apodrecer decentemente.
Esta é uma questão fundamental ( é evidente! ).

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

simpatias

(Nem só de azia há-de sobreviver este blog…)

Já não era sem tempo subscrever e assumir o fraquinho por Obama!

Maledicência

Na falta de melhor assunto, manifesto a minha repugnância pelo fenómeno “Nora Roberts”. Todas as vezes que vou a uma livraria encontro editado um novo romance seu e não entendo como. Esta senhora escreve com uma frequência alarmante. Pelos vistos já editou 160. Li um desses 160 com um sôfrego de saber o fim apenas para jurar nunca mais perder tempo com tais géneros literários. Foi assim que a conheci. Para depois esbarrar nela, mês após mês, em novos livros, de capas e títulos airosos. E o seu pseudónimo ainda alavanca mais a minha embirrância.
Enfim, uma reactualização alargada e refinada dos romances arlequim que me persegue e deprime por figurar (quase) sempre no top dos livros mais vendidos.

domingo, 16 de novembro de 2008

2 Musts a propósito de mais uma manifestação de professores:

- o filme “Entre les murs” (a turma) de Laurent Cantet



- as palavras de D. Schwanitz em “Cultura” :

“ Já de si, a vida dos professores não é fácil. Para já, os outros grupos sociais têm-lhes um desprezo latente. Este deve-se ao facto de nunca terem abandonado o sistema escolar para se afirmarem na vida fora do mesmo. (…) Acresce que os professores têm mesmo uma determinada doença profissional: lidam, dia após dia, com adolescentes e crianças: assim, é inevitável que facilmente se tornem infantis (…) capazes de se exaltar com coisas secundárias. Mas este desprezo é injusto face a uma tarefa que nem um gestor experiente, nem um empresário com nervos de aço haveria de aguentar durante uma manhã sem pensar em fugir: nomeadamente a de levar uma horda de selvagens, sem interesse na aprendizagem, mal-educados e habituados ao entretenimento televisivo a interessarem-se pela sublimidade” de Camões, Fernando Pessoa e ilustre companhia.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008


Eu sabia!
Preciso de um(a) secretário(a), desesperadamente. Tão certo como lavar pratos não levar ninguém longe, formatar e imprimir também não me preenchem.

domingo, 9 de novembro de 2008

Piano

Antes eu estudava piano. Com menor frequência do que a minha professora desejava mas demasiadas horas para os meus vizinhos, sei-o hoje. Atenção porque nem era nada má, tenho provas factuais e testemunhas.

As pessoas são mais espertas que julgamos. O casal do 7ºandar engendrou uma vingança genial. No intervalo entre as minhas escalas, estudos e invenções, eles redigiam o amargo castigo. Um dia no elevador caiu a bomba e contentes me informaram que a sua filhota “mais nova” se preparava para iniciar também o estudo de tão brilhante instrumento.

Inicialmente, achei piada. Depois de incontáveis tardes de agonia, lá percebi a mensagem. A criatura diverte-se com a repetição frenética da mesma música há mais de 1ano. Sei de cor as passagens em que se engana. Pesa-me na consciência ter sido inspiração para tão grande mal e não sei a quem pedir perdão…a mim própria, a eles, a Mozart? Só posso esperar que um dia se farte (quando? Quando?) e até lá usar tampões para os ouvidos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Deliciosa Demagogia

Tenho um professor que é um agitador político. Na primeira aula, quis abrir-nos os olhos para a máfia dos Hospitais, Farmácias & Governo. Sacou da calculadora para escrever no quadro o custo anual do tratamento da doença A em Portugal. É claro que tudo com mais de 7 dígitos parece muito grande mas não se quis embaraçar com comparações.
Gosta de ser bombástico, portanto na segunda aula chamou estúpidos a todos que não ele e nós, alunos, mais dignos de pena. Preocupa-se muito, desde o início do curso temos sido educados por cretinos, e até profetiza: “Nada do que aprenderam até aqui se vai aproveitar.”.
Naturalmente, quanto ao caso clínico da aula, comentou: o enunciado é estúpido (a idade do paciente não se actualiza de ano para ano); os médicos intervenientes foram estúpidos também (como a maioria da classe, aliás); o paciente foi um grandessíssimo estúpido pela sua pateta tentativa de por termo à vida; e numa estupidez ainda maior, os portugueses (porque revelam falta de estudos no modo simplório como se costumam matar, não se sabem suicidar com drogas engenhosas cujo conhecimento requer licenciatura).